“Algumas casas não guardam silêncio, guardam memórias.”
As batidas começaram discretas, como se a madeira velha da parede apenas estalasse com o frio da madrugada. Mas, noite após noite, os ruídos aumentavam, ganhando ritmo, como uma respiração contida, como unhas raspando do outro lado.
Tentei ignorar. Fones de ouvido, música alta, remédios para dormir. Nada silenciava aquele som abafado, como se alguém… ou alguma coisa… se arrastasse entre as vigas, tentando sair.
Contei para os vizinhos, que riram. Contratei um encanador, um eletricista. Todos saíram da minha casa com a mesma expressão de descrença e pena.
Então, começaram os sussurros.
No início, pareciam apenas palavras soltas, arranhadas, como se o próprio vento me pregasse peças. Mas logo as frases ficaram claras:
“Você sabe o que fez…”
“Deixe-me sair…”
“Está tudo aí dentro…”
Passei a evitar aquele quarto. Mas a voz… a voz me seguia. Pela sala, pela cozinha, até nos meus sonhos.
Certa noite, consumido pela exaustão e pelo medo, peguei uma marreta. Comecei a destruir a parede de onde achei que o som viesse. Poeira e lascas de madeira voaram. Tijolos se partiram. Cavei fundo, como se cavasse a própria memória. A cada golpe, o cheiro de umidade e ferrugem invadiam o quarto. Meus dedos sangraram, meus pulmões ardiam, mas continuei… até que encontrei algo.
Recuei, tremendo!
O buraco na parede revelava o que eu temia. Um corpo. Os olhos semiabertos. A pele pálida. O rosto que eu conhecia tão bem. O mesmo rosto que gritou por misericórdia naquela noite em que, cego de raiva, eu a empurrei contra a parede, com força demais… Com ódio demais!
Eu a enterrei ali, na parede, achando que tijolos guardariam o segredo. E acabei guardando o segredo de mim mesmo.
Foi então que compreendi: o eco não vinha de trás da parede. Vinha de dentro de mim. De dentro da culpa que crescia, silenciosa, sufocante, dia após dia.
Naquela mesma noite, com a marreta ainda nas mãos e os ouvidos latejando com os gritos que só eu ouvia, tomei minha decisão. Era a única forma de silenciar aquilo tudo.
Agora, sentado no chão frio, encostado na parede destruída, observo o frasco vazio ao meu lado. Sinto o peso das pálpebras. A respiração ficando cada vez mais lenta. O som… o som das batidas finalmente diminui.

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