06/07/2026

HERANÇA



 “Ninguém entra nem sai de uma casa sem levar algo dela consigo.”


Era uma rua comum, com casas comuns. Um único terreno chamava atenção pelo tamanho e sua casa de arquitetura antiga, ao fundo, como se pertencesse a outro tempo.


O portão destrancado era um convite para adentrar naquela propriedade. Alma estava empolgada com a herança que recebera de sua tia falecida. Caminhar pelo grande jardim de mato alto, aparentemente esquecido, despertava na moça um misto de alegria e desconforto.


Ao abrir a pesada porta de madeira, o cheiro de mofo soprou como um vento contido. Móveis cobertos por uma densa camada de poeira ornavam a sala escura. Entre admiração e curiosidade, Alma deparou-se com a escada de mármore ao fundo do cômodo. Olhou para cima e resolveu subir. Porém, parou no primeiro degrau, com a sensação de que estava sendo observada. “Será que há mais alguém na casa?” Pensou — incrédula por não ter sido avisada sobre a presença de outra pessoa no local.

02/07/2026

ENTRE ESPELHOS E RAIOS

 



“Espelhos chamam coisas.”



    A estrada para o interior parecia mais estreita do que Verônica lembrava. As nuvens pesadas se acumulavam no céu como uma tampa cinzenta, abafando o ar, exalando a quietude que antecedia as tempestades. Ela diminuiu a velocidade quando viu aquele telhado familiar surgir entre as árvores — a casa da avó, intacta, imóvel, quase desafiando o tempo.


    Fazia um ano desde que a avó de Verônica finou-se, mas ela ainda sentia o estômago desfazer-se cada vez que cruzava o portão. Verônica perdeu seus pais muito cedo, em um acidente de automóvel, e sua avó se tornou seu símbolo de amor e proteção.


    A casa era mais do que lembrança: era o único lugar onde ela se sentia inteira. Ou onde sentia que havia sido inteira algum dia.


    A jovem estacionou o veículo, respirou fundo e encarou a fachada. Dessa vez, veio para esvaziar gavetas, separar roupas, se desfazer dos objetos pessoais da avó, tirar fotos da antiga residência para anunciar a venda. Precisava do dinheiro. Desde que perdeu o emprego após o falecimento da avó, nada parecia se encaixar. A terapeuta dizia ser luto intenso. Verônica chamava de sobrevivência arrastada.

ECOS NA PAREDE



“Algumas casas não guardam silêncio, guardam memórias.”



    As batidas começaram discretas, como se a madeira velha da parede apenas estalasse com o frio da madrugada. Mas, noite após noite, os ruídos aumentavam, ganhando ritmo, como uma respiração contida, como unhas raspando do outro lado.


    Tentei ignorar. Fones de ouvido, música alta, remédios para dormir. Nada silenciava aquele som abafado, como se alguém… ou alguma coisa… se arrastasse entre as vigas, tentando sair.