Era uma rua comum, com casas comuns. Um único terreno chamava atenção pelo tamanho e sua casa de arquitetura antiga, ao fundo, como se pertencesse a outro tempo.
O portão destrancado era um convite para adentrar naquela propriedade. Alma estava empolgada com a herança que recebera de sua tia falecida. Caminhar pelo grande jardim de mato alto, aparentemente esquecido, despertava na moça um misto de alegria e desconforto.
Ao abrir a pesada porta de madeira, o cheiro de mofo soprou como um vento contido. Móveis cobertos por uma densa camada de poeira ornavam a sala escura. Entre admiração e curiosidade, Alma deparou-se com a escada de mármore ao fundo do cômodo. Olhou para cima e resolveu subir. Porém, parou no primeiro degrau, com a sensação de que estava sendo observada. “Será que há mais alguém na casa?!” Pensou — incrédula por não ter sido avisada sobre a presença de outra pessoa no local.
Convencida de que não estava sozinha, Alma subiu para verificar. Da ponta da escada, visualizou o corredor que dava acesso aos cômodos superiores e resolveu entrar em um dos quartos. Era o quarto da tia.
O ambiente estava mergulhado em penumbra, e o ar parecia mais pesado do que no lado de fora, como se cada móvel guardasse anos de silêncio. O grande armário rangia levemente, emitindo um estalar baixo e contínuo. Sobre a mesinha, um retrato antigo de uma mulher jovem a encarava e, por um instante, Alma teve a sensação de que os olhos da foto emoldurada a seguiam, embora achasse que aquilo fosse impossível. O tapete grosso estava coberto de poeira, mas algumas marcas no chão chamaram sua atenção, como se alguém tivesse passado por ali recentemente. Ou, pensou Alma, talvez fosse apenas efeito de seus próprios passos. Os ruídos pareciam responder a cada movimento seu, como se a casa estivesse consciente da sua presença.
De repente, uma onda de ar quase congelante tomou conta do ambiente, contrastando com o sol quente lá fora. Uma sombra passou apressadamente pelo corredor. Alma não conseguiu ver o que era, pois chegou à porta do quarto tarde demais.
Confusa, Alma procurou entender o que acontecia. Enquanto observava os antigos móveis daquele quarto, viu-se envolta pela cortina que, sem motivo aparente, desprendeu-se da janela. Desvencilhando-se do grande tecido, a moça saiu do quarto e tomou o corredor em direção a outra escada: a estreita escada que dava acesso ao sótão da propriedade.
Alma subiu ao terceiro piso e encontrou o sótão empoeirado mas estranhamente arrumado, como se alguém ainda vivesse ali. Ao olhar para o canto mais longínquo do cômodo, viu a silhueta alongada de uma mulher, sem conseguir identificar seu rosto.
A figura sombria virou-se lentamente, e Alma tentou fugir, mas seu corpo não respondeu à intenção de seu movimento.
Assustada, Alma buscou em sua memória a lembrança da tia, retirada da casa contra a própria vontade e encerrando seus dias no leito de um sanatório.
Um torpor tomou conta do corpo de Alma, e ela passou a não sentir mais os próprios membros. Sua mente ficava cada vez mais vazia de suas lembranças, enquanto passava a enxergar o mundo em terceira pessoa. Alma não viu seu reflexo no espelho pendurado acima da mesinha no canto do sótão. De frente para ela, estava uma outra Alma, já vestida com as roupas empoeiradas que estavam no baú, a olhando com um sorriso enigmático.
Alma era a nova moradora do sótão. Já seu corpo, em passos elegantes, desceu as estreitas escadas, enquanto a porta do terceiro andar se fechava às suas costas.

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